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Eu bebo, sim, e tô perdendo
Bruno Castro, Damiso Faustino, Denis Marchello, Eric Silva e Fernando Lana, do Virajovem São Paulo (SP)*; Juliana Sayuri, colaboradora da Vira; Gabriel Vituri, da Redação (25/06/2009)
Roda de amigos, mesa de bar ou na calçada, o danado do álcool rola solto. Daqui a pouco o fígado reclama, a memória falha... Saiba porque o consumo de bebidas alcólicas está crescendo entre jovens e adolescentes
"Rola bebida?" A pergunta é comum, afinal de contas, o álcool nos dá asas: sensação de euforia, leveza, desenvoltura. Embalados em conversas e risadas entre um gole e outro, a timidez dá lugar ao sorriso fácil, à lábia das palavras e à ousadia. Mas que tal discutirmos sobre porque seria bom maneirar nos pileques?
A ideia de que beber simboliza independência, modernidade, alegria e sensualidade, agrava o problema. "Claro, sabemos que isso é ilusório, inclusive os jovens sabem, mas o apelo é bem grande", afirma a médica Monica Zilberman, pesquisadora do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (USP). Alexandre de Campos Carvalho, 18 anos, de São Paulo (SP ), concorda: "A gente se sente mais solto, livre e alegre." Um jovem de 17 anos, também de São Paulo(SP), que prefere não se identificar, emenda: "Chega a um ponto em que todo mundo tá feliz e rindo sem saber o porquê". Nas palavras do historiador Henrique Carneiro, professor da USP e pesquisador do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre Psicoativos (NEIP), "não adianta dizer que é proibido servir bebidas alcoólicas para menores de 18 anos, se o tempo todo, os heróis da juventude (esportistas, artistas, celebridades) estão insistentemente dizendo que a bebida é fonte da felicidade e a essência de todas as festas". Aliás, "o principal alvo da mídia é o jovem", embala a psicóloga Carla Linarelli, especialista em Dependência Química pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). "Pelo fato de o álcool ser uma droga aceita e celebrada pela sociedade, é muito difícil admitir problemas com o consumo. No caso dos jovens, é ainda mais complicado. Dificilmente eles percebem e aceitam que o álcool passou a prejudicar suas vidas", afirma Carla. Para o jovem Diego Monteiro, que mora em São Paulo (SP) e tem 16 anos, "só tem consciência mesmo quem já teve um problema na família e sabe a grandeza que é essa doença, o alcoolismo". Caindo no poço
Muitas vezes, só se percebe a gravidade da situação quando se cai no "fundo do poço". Mas será que só quebrando a cara a gente percebe que há algo de errado? Para quem gosta de beber, como o estudante Ciro Alexandre dos Santos, de Salvador (BA), o sinal de alerta é a saúde: "Se um dia realmente precisar parar de beber será por alguma doença". A médica Florence Kerr-Corrêa, professora de psiquiatria da Universidade Estadual Paulista (UNESP), diz que usualmente o mais alarmante é a dependência, "no entanto, o consumo excessivo da bebida acontece, na maioria das vezes, com pessoas que não são dependentes". Isto é, o abuso também é preocupante. Não é só bebericar uma caipirinha, mas frequentemente entornar várias doses - de cerveja, vinho, destilados, coquetéis e todas as variedades do cardápio -, a ponto de "perder a noção", entrelaçar as pernas, ziguezaguear na rua, brigar sem motivos, cair no poço e, pior, cair no próprio vômito, estirado na sarjeta. Enfim, é encher a cara e o saco da galera: o clássico porre. "O porre está associado a uma série de riscos, como acidentes, brigas, violência, sexo sem proteção e prejuízo no rendimento escolar", alerta Florence. Às vezes, com um ou outro porre, nosso corpo ainda se ajusta, se equilibra novamente. Porres constantes, intercalados com ressacas terríveis em um corpo já fragilizado, dão sinais de desequilíbrio. Chega, então, o drama maior: o vício. Carla Linarelli diz que essa síndrome causa impacto em tudo na vida do alcoolista: nos aspectos físicos e psicológicos, nas relações de família, amigos, trabalho. A dependência é uma compulsão, não é mais uma vontade pontual para um momento de lazer. Principalmente entre os jovens, a questão é complicada no Brasil, "não porque eles são dependentes, mas porque costumam beber muito e sem responsabilidade", destaca Carla. Eufóricos ou caindo de bêbados, os jovens podem perder o controle, a coordenação motora, os reflexos, ficando mais vulneráveis a situações de risco. Galera informada Desafiar a ordem da sociedade é uma das marcas da adolescência e da juventude, épocas de curiosidade, experiências novas, transformação, curtição e prazer. "A adolescência é a fase em que você está no auge da sede dessas sensações", afirma Karine Araújo, 20 anos, de São Paulo (SP). Neste momento da vida, os jovens pensam que são invencíveis e imunes às conseqüências de seus atos. Aí entra o álcool como símbolo de um rito de passagem: a iniciação na vida adulta. A ilusão de ser "dono do próprio nariz" para beber marca essa transição, em que se deixa a infância para trás, incorporando uma nova identidade juvenil. Além disso, há uma série de fatores agravantes nessa questão: a estrutura familiar abalada, o "porre"de propagandas de bebidas, a falta de fiscalização nos bares e de políticas públicas do Estado. Todos esses ingredientes na coqueteleira balançam o consumo etílico entre jovens, provocando ressacas terríveis na sociedade. O historiador Henrique vê essa realidade como uma questão cultural e bio-psico-social. Assim, é essencial manter a mente aberta e o diálogo sobre todos estes pontos. É muito mais fácil proibir com palavras e "lavar as mãos"; o desafio é a ação para a transformação. O consumo e a venda de bebidas alcoólicas entre crianças e adolescentes são proibidos no Brasil pela Lei nº 9.294. E isso não é por acaso! "Crianças e adolescentes se encontram em um momento de desenvolvimento físico e emocional e o álcool o atrapalha diretamente. Além disso, quanto mais precoce a experimentação, piores são as conseqüências e maior o risco de desenvolvimento de dependência ou abuso", afirma a pesquisadora Carla. Uma pesquisa recente, ainda em fase de conclusão, revela que cerca de 90% dos bares em São Paulo vendem bebida alcoólica para menores de 18 anos. Coordenado por José Florentino, especialista em Dependência Química pela UNIFESP, o estudo cobriu 700 bares e mercados da capital paulista. Onde está a fiscalização? "Todos nós sabemos que os comerciantes querem vender os seus estoques de bebidas de todas as formas e jeitos, até mesmo desobedecendo à legislação", critica José Florentino. No Estatuto da Criança e do Adloescente, o artigo 81 declara a venda de bebidas alcoólicas proibidas a crianças e adolescentes. O garçom Joélido Souza da Silva diz que nunca vende bebidas a adolescentes, menores de 18 anos, pois sempre pede o documento quando vê uma "carinha mais nova". No botequim onde trabalha, ele conta que vê poucos jovens e relata que garotos e garotas ficam espalhados pela rua, em suas turmas, com suas próprias bebidas, misturas coloridas de pinga com refrigerante, vodca com suco, energéticos e afins nas garrafas de plástico, e que pedem para entrar no bar só para usar o banheiro - o que a norma da casa não permite. Do primeiro gole à dependência Mas por que o jovem se arrisca a comprar bebidas de forma ilegal? "Os adolescentes não questionam, são curiosos, acham que o fato de conseguirem comprar a bebida alcoólica é uma façanha, por ser proibido para eles, por ser escondido dos pais", responde José Florentino. Luiz Antonio da Cruz oferece uma resposta muito pessoal. Ele deu seu primeiro gole aos 14 anos. "Fui no embalo dos colegas, tudo pra mostrar que já estava preparado para as baladas", ele conta. Sem opções de diversão, ele encontrava diversão só na mesa de bar. Francisco Reis de Souza, de Salvador, critica essa falta de alternativa: "Grande parte dos jovens bebem porque não têm outras oportunidades de cultura, como teatro e cinema, ou esporte e lazer. Aí eles fazem do final de semana, principalmente, um momento cultural no qual a galera toma umas". Além disso, a falta de informação deu mais um empurrãozinho para o que se tornou o pesadelo de Luiz Antonio: a dependência. Depois de uma avalanche de episódios traumatizantes, ele deu a volta por cima aos 32 anos, quando parou de beber. De lá para cá, ele criou o site alcoolismo.com.br, que oferece ajuda online para pessoas com esse problema. Fato é que a discussão sobre o uso de álcool por jovens e adolescentes não pode cair no moralismo, na intolerância, no fruto proibido. Se uma das mais preciosas virtudes da juventude é a audácia para quebrar tabus, por que não quebrar esse tabu com palavras, com discussão, com alternativas para transformação? SE LIGA! Bio-psico-social: quer dizer que envolve o corpo (bio, o efeito fisiológico), a mente (psique, causas e efeitos psicológicos) e a sociedade (social, o significado sociológico e antropológico). Não é de hoje O historiador Henrique Carneiro destaca que o álcool é uma questão cultural, "o consumo obedece a uma série de padrões de comportamento que difere de uma sociedade para outra". No Brasil colonial, os indígenas passavam até três dias sem comer nada, só bebendo até literalmente caírem de bêbados: "Eles eram alcoólatras? Eles tinham um padrão patológico? Não, porque esse tipo de consumo era ritualizado em momentos muito particulares. Era regrado", elucida Henrique. Isto é, diante da diversidade presente entre tantos exemplos, não se pode demonizar o álcool, pois o padrão varia de acordo com a cultura. Para Henrique, o grande problema das sociedades urbanas contemporâneas é o descontrole, pois não há uma regra cultural a guiar o consumo. Consumo feminino Estudo recente da médica Monica Zilberman revela que, entre jovens de 14 e 17 anos, as meninas praticamente bebem tanto quanto os meninos - a diferença é de apenas 4 pontos percentuais. A pesquisa integra estudo maior, a Pesquisa Nacional sobre o Consumo de Bebidas Alcoólicas (PNBA), liderado pela Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas da UNIFESP, em parceria com a Secretaria Nacional Antidrogas. Monica conta que foram entrevistadas 3007 pessoas acima de 14 anos sorteadas aleatoriamente em 143 cidades, usando um questionário extenso sobre os hábitos de consumo de álcool. Efeitos colaterais Os efeitos do álcool no cérebro dependem do nível de álcool do sangue (NAS). Sua concentração é calculada por múltiplos fatores: o número de drinques consumidos, o tempo e a velocidade para consumi-lo, o sexo da pessoa, se a pessoa se alimenta antes de beber ou não. Quanto aos efeitor colaterais nos órgãos do corpo humano, a médica Florence Kerr-Corrêa alerta que"do estômago ao fígado, pâncreas, todo o sistema nervoso central e perférico, coração e pulmão. Pode ter depressão e pensamentos suicidas. Nenhum órgão ou sistema é poupada da ação lesiva do álcool". Mas pondera: "Isso quer dizer que todos que bebem demais terão cirrose? Não. Ainda não se sabe por que as lesões acontecem de forma diferente para cada pessoa". * Um dos Conselhos Jovens da Vira presentes em 21 Estados do País (sp@revistaviracao.org.br)
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